Blends, robustas e arábicas: uma questão de posicionamento

Blends, robustas e arábicas: uma questão de posicionamento

Tudo indica que o artifício do blend (mistura) tenha surgido como o whisky. Inicialmente, o whisky era vendido como single malte e era feito com malte de uma única destilaria. Entretanto, em 1853, uma das principais produtoras vendeu volume superior à sua capacidade de produção e para cumprir o acordo, comprou malte de vizinhos e os misturou ao seu. Essa foi a primeira de muitas experiências que resultaram na criação dos blends. Atualmente, os Blended Scotch Whisky, que são o resultado da mistura de malte whisky e whisky de grão, respondem por algo próximo a 90 % das vendas mundiais da bebida.

No caso do café, é necessário lembrar que até 1865, o consumidor europeu e norte americano adquiria grãos verdes de origens diversas e os torrava em casa. Após esse período, o café passou a ser vendido torrado e em pacotes. Essa mudança propiciou o aumento do consumo e permitiu a formação dos blends. O café, assim como o whisky, passou a ser vendido sob a forma de misturas.

O blend, do ponto de vista do torrefador, sempre foi um grande trunfo. Primeiro porque a mistura de diferentes tipos de cafés sempre foi comunicada como uma espécie de alquimia. Vendeu-se a ideia de que os blends são feitos para proporcionar uma experiência de sabor e qualidade única. Dessa forma, o blend era uma espécie de segredo guardado a sete chaves. Havia na mistura a mística necessária para se vender café com glamour; e durante anos, a propaganda dos grandes torrefadores tinha por objetivo convencer o consumidor de que o seu blend era superior. Além disso, havia o argumento de que os blends são a garantia de padronização do produto. As misturas seriam feitas de modo a evitar mudanças que pudessem ocorrer em função de alterações nas condições climáticas, comuns no caso dos vinhos, que por essa razão são vendidos e precificados em função de suas safras. Por tudo isso, o blend era visto como melhor e mais completo pois combinava sabores, aromas, acidez e corpo de forma a produzir o café perfeito.

Porém, o que ocorre de fato é que os blends são a ferramenta ou instrumento de um grande negócio. Os 'alquimistas' do café misturam grãos melhores com grãos inferiores com o objetivo de reduzir seus custos. Por sua vez, custos menores representam maiores lucros e cabe aos 'alquimistas' controlar para que a qualidade caia até níveis aceitáveis e/ou imperceptíveis. Associado a tudo isso, existe o trabalho dos homens de marketing. A propaganda, a embalagem, os slogans e as marcas são trabalhadas a fim de agregar valor ao produto. Essa é a fórmula do lucro: os 'alquimistas' reduzem custos via blends e os marketeiros aumentam o preço via propaganda e construção de marca.

Por fim, o blend significa flexibilidade. A mística fez com que fosse guardado a sete chaves e por isso o consumidor não sabe o que está consumindo. Esse fato encobre um outro aspecto dos blends. As misturas são modificadas segundo alguns critérios – 'segredos dos magos', e isso reduz a dependência do torrador em relação a um determinado tipo de café ou origem.

Em síntese, o blend foi o grande achado do mercado de café. Ele garantiu, durante anos, o lucro de poucos e a dependência de muitos. Os poucos são os torrefadores e os muitos são os produtores, que ficam 'presos' dentro da estrutura do mercado.

Mais recentemente, a situação agravou-se ainda mais. Entre os anos de 2006 e 2012 a participação de cafés robustas cresceu 10% nas importações globais dos países importadores. Passou de 32% para 42% do total de café importado. Isso significa que o torrefador internacional substituiu cafés arábicas (de melhor qualidade) por cafés robustas (inferiores com custo bem mais baixo). O resultado foi aumento de lucro do setor industrial e redução de preços e, automaticamente margens, dos produtores de cafés arábicas.

Essa mudança estrutural foi profunda e creio que o caminho para os produtores de cafés arábicas é criar uma propaganda educativa em nível mundial no sentido de criar o conhecimento real sobre os blends. O consumidor mundial de café precisa conhecer sobre café. Precisa saber a diferença entre um blend composto por arábicas e robustas e um café 100% arábica. Sem esse conhecimento, não há como ocorrer uma mudança de comportamento em favor do 100% arábica.

A pergunta que fica é: a responsabilidade por divulgar o 100% arábica é dos países produtores de cafés arábicas (de qualidade superior) ou dos torrefadores internacionais, que ganham com o artifício dos blends entre arábicas e robustas?

Artigo extraído do site Café Point